Livros

Paisagem com ideias fixas

Tadeu Sarmento

Categoria: Poesia

Tags: poesia, poesia brasileira

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Descrição

“Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem”, nos diz Herberto Helder, poeta português que ressona por todos os poemas de Tadeu Sarmento, na medida em que é o poeta escolhido por ele como herança e árvore genealógica. E não apenas isso, pois o verso citado acima joga sua pesada sombra sobre toda esta paisagem com ideias fixas, na qual as cicatrizes sobrepostas parecem querer, cada uma, ocultar uma ferida anterior, sufocar o que a anterior parecia querer dizer de essencial, logo, de espontâneo.

Para Sarmento, a forma não é um método de cicatrização rápida, mas de ocultamento, e a cicatriz (a imagem) uma máscara que desvia nossa atenção daquilo que é mais importante. E o que é mais importante nesta paisagem? Não sabemos. Desconfiamos que sequer o autor o saiba. É o próprio Sarmento quem, escrevendo em seu blog visoesdeezequiel.wordpress.com, confere à sua escrita o caráter desse enigma: “quem fala do futuro fala na verdade da própria morte. Arrastamos o futuro atrás de nós: é este peso morto, fingindo ser passado. A literatura é um desaparecimento que deixa marcas, falsas pistas. O escritor é um náufrago que descreve a ilha, sendo incapaz de verbalizar o caminho que o naufrágio tomou para conduzi-lo até ela”.

Pois bem, este livro é a ilha; e a única forma literária capaz de descrevê-la nesses moldes, margeada pelo esquecimento, é a poesia. O poema oculta todos os pontos de partida, apresentando apenas a síntese, o resultado de um trabalho que queimou atrás de si todas as pontes. “Todos os meus textos em prosa são exercícios formais que têm como objetivo me preparar para escrever o poema, para o qual só me dirijo quando sinto ter acumulado bastante esquecimento e musicalidade”, diz o autor, no blog.

Por fim, em outro ponto do seu blog, o autor afirma o seguinte: “escrevo por ter tantos segredos que nem sei mais quais são meus. Os que não são meus (ou eu acho que não são meus) chamo de literatura. A psicóloga (seus olhos) diz que não sou eu quem escreve, mas o outro que criei para escrever. Este ‘outro’ está para escrever e se ferir em meu lugar. Este ‘outro’ lembra enquanto eu esqueço. Vocês chamam de ‘poema’ o que eu (ele?) chamo de memória. Cometemos um erro, todos nós”.

Mas, se cometemos um erro, então não devemos chamar de “poemas” os textos deste livro, tanto quanto o autor não deve chama-los de “memória”. O que são então? Imagens cicatrizes de outras imagens? Deixo a cargo de você, leitor, decidir. Até aqui, pelo menos, sabemos que Tadeu Sarmento está se tratando com alguma psicóloga lá no Recife, e que ela tem “algo nos olhos” que, aos “olhos” do poeta, dizem alguma coisa.

Que belos olhos ela deve ter.

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