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Virose

Lucas Barroso

Categoria: Romance

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Descrição

O ser humano é, antes de tudo, um crédulo. Não estávamos em 1918, quando a “gripe espanhola” matou dezenas de milhões no mundo inteiro e até um presidente eleito, no Brasil. Estávamos um século de evolução da medicina à frente. Mesmo assim, houve alarmismo quanto à “gripe A”. Os mais informados e céticos afirmavam que existiam, é claro, motivos para preocupação, mas não para paranoia. As pessoas, porém, acreditaram que era algo seriíssimo. As pessoas gostam de acreditar. Aulas suspensas, frascos de álcool-gel em bolsas e pastas, filas para exames. Tudo isso para, pouco depois, os “especialistas” concluírem que a doença tinha a mesma gravidade da “gripe comum” e, inclusive, o mesmo índice de letalidade. Pois é. A histeria e o exagero humano, contudo, sempre podem ser denunciados, e é muito bom quando isso acontece via arte. Neste romance, por exemplo, acontece. Lucas Barroso, jornalista, está atento aos fatos, incluindo os superdimensionados. E usa-os muito como mote para o seu trabalho também de escritor. “Virose” é seu título de estreia e remete, sim, à epidemia de 2009. Mas ‘virose’ também está aqui no sentido metafórico… o leitor perceberá, assim como as alusões a outros fatos recentes, a exemplo dos oriundos das relações internacionais e da lamentavelmente sempre atuante indústria das celebridades. E aquele mais atento também saberá identificar, na prosa de Barroso, as prosas que o influenciaram: a de Nelson Rodrigues – períodos curtos, ágeis; diálogos realmente próximos da fala popular – e as de John Fante e Charles Bukowski – situações que envolvem sexo, álcool e violência; personagens losers e/ou outsiders –, para citar só três. Notará ainda a proximidade da estrutura da trama, a ligar personagens de lugares e condições distintos, com a dos filmes do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. As referências de Barroso, enfim, são várias; afinal “nenhum homem é uma ilha”, sentenciou o grande poeta. Mas ele consegue pôr tudo no liquidificador e adicionar, é claro, um tempero pessoal. A narrativa é fragmentada, ora vai em primeira pessoa, ora em terceira, e carrega uma história cuja densidade não se revela de imediato. O leitor, se não for dos apressados, saberá adiante nas páginas que o estilo “filme policial” dos primeiros capítulos explica-se. E verá que os personagens são vívidos, com sutilezas psicológicas, e que o autor é capaz de observações sagazes sobre seus comportamentos. Nas entrelinhas, encontrará ainda críticas pertinentes à sociedade brasileira, como no caso da passividade e da elasticidade ética. “Virose” é um livro ensimesmado e conectado ao mundo, ao mesmo tempo. Olha para dentro e para fora. Como todo bom romance. Nisso, pode-se acreditar.

Lucas Colombo

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